quarta-feira, 23 de junho de 2010

SOCIALIZAÇÃO DA CRIANÇA NA PRIMEIRA INFÂNCIA

Acompanhar o processo de socialização da criança em seus primeiros anos de vida é de fundamental importância para um desenvolvimento saudável, e para que a criança tenha um bom desenvolvimento é preciso antes de tudo que seja amada e desejada pela família, que possam compreender, apoiar, respeitar todas as dificuldades e barreiras que possivelmente enfrentarão, mas de maneira positiva, afinal faz parte do processo.

A psicologia cientifica estuda a subjetividade da criança nos diversos meios sociais em que ela está inserida, pois para cada ambiente seja em casa, seja na escola ou brincando ela se interage e constrói sua própria identidade.


O objetivo maior é estudar o processo de socialização da criança de 2 a 7 anos – que segundo Piaget (2007), é caracterizado como a primeira infância – sendo o desenvolvimento decorrente de uma interação entre características biológicas;antropológicas; sociológicas; psicológicas;políticas e culturais. É uma proposta desafiadora e indissoluvelmente associada a uma interdisciplinaridade de abordagens que se entrecruzam. Nesse trabalho, fizemos uma revisão bibliográfica e buscaremos desenvolver os seguintes pontos sobre a socialização da criança: 1) Construção Histórica; 2) Criança e desenvolvimento; 3) Criança e subjetividade; 4) Família – Socialização primaria da criança; 5) Escola e socialização da criança; 6) Mídia e tecnologia.





II - DESENVOLVIMENTO


1. Desenho Metodológico

O objetivo geral do TIDIR I é estimular a busca de conhecimento sobre um determinado tema escolhido pelo grupo e após definido produzir diferentes formas de apresentação para a comunidade acadêmica e a comunidade em geral.

Ao longo do trabalho foram realizados alguns objetivos específicos como elaborar o currículo lattes ; realizar pesquisas bibliográficas sobre os possíveis temas que o grupo gostaria de abordar através do site Scielo ou em livros, e realizar resenhas sobre o possível tema a ser escolhido pelo grupo. Uma das resenhas foi realizada em grupo e as demais foram realizadas em duplas. Após algumas reuniões do grupo foi definido o tema: SOCIALIZAÇÃO DA CRIANÇA NA PRIMEIRA INFÂNCIA. Em seguida foram elaboradas perguntas interrelacionadas com o tema escolhido e as matérias do curso. Após alguns ajustes que foram feitos com o grupo e os professores as perguntas foram definidas.

  • Epistemologia da psicologia:

Como a psicologia científica estuda o processo de desenvolvimento da subjetividade da criança?

  • Psicologia geral:

Como o comportamento da família influencia na socialização da criança?

  • Sociologia:

Como novas tecnologias interferem no processo de socialização da criança?

  • Antropologia cultural:

Como a sociedade evoluiu ao considerar o papel da criança na sociedade medieval à contemporânea?

  • Anatomia e Neuroanatomia humanas

Como ocorre o desenvolvimento morfofuncional do sistema nervoso central da criança?

  • Política e sociedade

Como a política educacional do governo interfere nas relações do ambiente familiar?

O passo seguinte foi definir subtemas e pesquisar artigos respondendo as perguntas, trabalhando o tema de modo interdisciplinar.

II – 2 – SUBTEMAS

2.1 Socialização da criança: Construção Histórica

A primeira parte do livro História Social da Criança e da Família, mostra como a categoria infância foi construída a partir da percepção do adulto sobre a criança. O autor Philippe Áries (2006) faz uma análise crítica tendo a perspectiva sócio-histórica e a interpretação da sociedade européia que até a Idade Média não distinguia crianças dos adultos.


Na idade Media, no inicio dos tempos modernos, e por muito tempo ainda nas classes populares as crianças misturavam-se com os adultos assim que eram consideradas capazes de dispensar a ajuda das mães ou das amas, poucos anos depois do desmame tardio, ou seja, aproximadamente aos sete anos de idade. (ARIÈS, 2006, p.193)


Segundo Áries (2006), a não existência da infância durante os séculos pré-modernos se dá pelo fato de que neste período da história a criança era vista sem distinção em relação ao adulto. Na família, havia amor, porém a função afetiva não era latente. A relação social principal era de sobrevivência e trabalho. A criança era socializada longe do ambiente familiar, porque era treinada em tarefas adultas.







Até por volta do século XII, a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la. É difícil crer que a ausência se devesse à incompetência ou à falta de habilidade. É mais provável que não houvesse lugar para infância neste mundo. Uma miniatura otoniana do século XI nos dá uma idéia impressionante da deformação que o artista impunha então aos corpos das crianças, num sentido que nos parece muito distante de nosso sentimento e nossa visão. (ARIÈS, 2006, p.17)


Num segmento dedicado à história dos jogos e da brincadeira, Áries (2006) descreve algumas passagens de um relato sobre a educação de Luís XIII, no século XVII. Fala sobre as surras que o menino levava suas danças e cantorias com os adultos; sobre brinquedos de criança e pequenas ações militares, jogos, religião, brincadeira de cortar papel com tesoura, música, alfabetização, regras de etiqueta e moralidade, brincadeira com bonecas. Também diz que contavam-lhe histórias, praticava o arco, jogava cartas, xadrez e participava de jogos dos adultos, jogo dos ofícios, mímica, balés, danças populares e festas tradicionais.

Aos sete anos, deixa as roupas de criança e sua educação é entregue a homens. Devem abandonar os brinquedos da primeira infância, especialmente as bonecas.

Como observamos a propósito de Luiz XIII, a boneca não se destinava apenas as meninas, os meninos também brincavam com elas. Dentro dos limites da primeira infância, a descriminação moderna entre meninas e meninos era menos nítida: ambos os sexos usavam o mesmo traje, o mesmo vestido. É impossível que exista uma relação entre a especialização infantil dos brinquedos e a importância da primeira infância no sentido revelado pela iconografia e pelo traje a partir da Idade Media. A infância tornava-se o repositório dos costumes abandonados pelos adultos. (ARIÈS, 2006, p.49)


Na sociedade medieval, não existia o sentimento ou a consciência da particularidade da infância. Assim que podia viver sozinha, a criança ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia deles.

Escola e Colégio na Idade Média eram reservados a um pequeno número de clérigos de diferentes idades que se tornam no início dos tempos modernos um meio de isolar as crianças e adestrá-las.

Há o uso de disciplina autoritária para separar as crianças da sociedade dos adultos. Resistências a essa evolução persistiram por longo tempo.

De asilos, as escolas passam a institutos de ensino, submetendo os alunos a uma hierarquia autoritária. Essa mudança fornece o modelo para a complexa instituição que se tornou o colégio moderno englobando ensino, vigilância e enquadramento da juventude. Esse processo está conectado à nova percepção das idades e da infância.

Diferenciação da população escolar a partir do século XV. O ponto essencial era adaptar o ensino do mestre ao nível do aluno, as classes eram estruturadas por idade.

A precocidade que antes estava relacionada ao sucesso, passa a ser repugnante. Justificativas: fraqueza, “imbelicidade”, incapacidade dos mais novos; algumas vezes proteção da inocência destes. Confusão na distinção das idades de primeira, segunda infância. Camaradagem tinha um valor moral, mas se deteriora, passa a uma forma de desordem. Surgem princípios de comando e de hierarquia autoritária simultaneamente ao aparecimento do absolutismo monárquico. Novos princípios de disciplina: maior responsabilidade dos mestres; educação acompanhada de instrução; maior interesse pelo comportamento dos alunos fora da sala de aula. Três características principais do novo sistema disciplinar: Vigilância, Delação, Castigos Corporais. História da disciplina do século XIV ao XVII, disciplina humilhante com chicotes e espionagem; o modo de associação corporativa desaparece, todas as crianças, independente de sua condição; eram surradas, os castigos corporais rebaixavam e humilhavam a infância, equiparando-a a condição da plebe.

Mas esse rigor traduzia um sentimento muito diferente de antiga indirefença, amor obsessivo que deveria dominar a sociedade.

A partir de 1763, o regime disciplinar escolástico passa a ser repudiado e os castigos corporais não são mais reconhecidos como adaptados à fraqueza da infância. O investimento passa a ser no despertar do adulto contido na criança, buscando o sentido de sua dignidade.

O autor Philippe Áries (2006) se utiliza de figuras para falar sobre infância e família, partindo da idéia de que a importância dada ao ofício na iconografia medieval é um sinal do valor sentimental que as pessoas lhe atribuíam.

A iconografia tradicional dos 12 meses do ano foi fixada no século XII: os trabalhos, os dias e estações. Ao longo do século XVI, essa iconografia dos meses sofreria uma transformação significativa, agregando a família combinando-se com o simbolismo de uma alegoria tradicional: as idades da vida. As formas de representação eram a criança, o casal e o idoso.

O aparecimento do tema da família não foi um simples episódio, mas uma evolução maciça durante os séculos XVI e XVII. O sentimento da família, que emerge nos séculos XVI e XVII, é inseparável do sentimento da infância. Surgem os Tratados Práticos de Educação: conselhos aos pais sobre como educar seus filhos. A educação não é mais voltada para as boas maneiras, é importante a escolha de uma escola e um ofício. O objetivo era instruir a própria família sobre seus deveres e suas responsabilidades, e aconselhá-la em sua conduta com relação às crianças.

2.2 Criança e desenvolvimento





Essas diferenças físicas ou de rapidez do crescimento podem ter profundos efeitos sobre as experiências iniciais da criança. Afetam também o autoconceito, as características físicas e habilidades físicas (ou sua ausência), influenciam significativamente no autoconceito ou sobre auto-eficácia de uma criança (BANDURA, 1997). A imagem que a criança tem de seu corpo e sua crença de auto-eficácia, não é apenas fruto do que é diretamente observado, mas uma construção feita a partir do que a criança escuta dos outros, suas experiências físicas diretas, e suas idéias sobre o que a cultura considera ser um corpo ideal. A escolha das atividades da criança, seu comportamento na sociedade e seu senso de valor serão afetados pela imagem corporal e pelo senso de auto-eficácia física formada no inicio da infância.

Ao abordar o desenvolvimento da criança, é importante compreender também o desenvolvimento do seu corpo, a partir dos estudos de anatomia. Segundo Bee (2003), a porção menos desenvolvida do cérebro no nascimento é o córtex, a matéria cinzenta convoluta que envolve o mesencéfalo e está envolvida na percepção, no movimento corporal e na complexidade do pensamento e da linguagem. Essas estruturas são compostas por dois tipos básicos de células, neurônios e células gliais. O processo desenvolvimental depois do nascimento é sobretudo a criação de sinapses entre os neurônios, o que envolve um enorme crescimento da árvore dentrítica e dos axônios e suas fibras terminais. Aos dois anos o bebê tem tantas sinapses quanto um adulto; aos três anos a criança tem mais de mil trilhões de sinapses, cerca de duas vezes mais que um adulto comum (SHORE, 1997 apud Bee, 2003). O cérebro em desenvolvimento cria muito mais neurônios e sinapses do que irá de fato precisar seguindo um padrão inato. Pouco a pouco as sinapses não-usadas são eliminadas, esse processo termina no final da adolescência (HUTTENLOCHER, 1994 apud Bee, 2003). No desenvolvimento cerebral o que não é usado acaba atrofiado. Quando uma criança se desenvolve em um ambiente desafiador irá reter uma rede de sinapses complexa do que uma que não tiver o mesmo estímulo.

É importante que se fale com os bebês, esta fala não deve ser inanimada, de uma TV, por exemplo, mas de um adulto atento e interessado, isso estimulará e organizará o cérebro do bebê, (FIFER E MOON, 1993 apud Bee, 2003). Uma rede mais complexa proporciona uma base continuada para o pensamento posterior, sendo esses primeiros meses, talvez, um período sensível para a retenção de sinapses. A complexidade neural que não é retida nesses primeiros anos não se desenvolve em tempos posteriores. Para a organização cerebral o bebê precisa de uma boa estimulação visual e auditiva, em especial da linguagem. A flexibilidade inicial do cérebro indica que o bebê e a criança podem se adaptar aos ambientes a que forem expostos e essa adaptação será parte integrante de seu cérebro pelo resto da vida. Um exemplo pode ser de uma criança que vive em um ambiente perigoso terá mais sensibilidade em situações de perigo, outro exemplo é de uma criança que é criada em ambiente barulhento que “aprende” a filtrar ruídos desnecessários (SHORE, 1997 apud Bee, 2003). A falta de estimulação, principalmente a verbal, nos primeiros meses terá efeitos muito sutis, mas duradouros, sobre o progresso cognitivo posterior da criança.

2.3 Criança e subjetividade

A infância é a fase da vida que estabelece as bases do desenvolvimento do homem. Da condição inicial de um ser totalmente dependente dos cuidados do adulto para sobreviver, a criança passa por uma transformação, construindo os processos que estarão permanentemente presentes na sua história. Assim, ela vai se tornando cada vez mais capaz de controlar seu corpo, andar, falar, conviver com outras pessoas, utilizar símbolos, alimentar-se, cuidar da higiene pessoal e realizar tarefas variadas.

A idéia de infância como uma fase natural está ligada ao fato de a criança viver um intenso processo de constituição das estruturas básicas: físicas, psicológicas e sociais. Isso é correto, mas só parcialmente, porque esse desenvolvimento ocorre à medida que esta criança se integre a uma realidade social. O papel social da infância é, muitas vezes, negado, como se ela ainda não existisse. A infância seria um período de preparação, uma reserva para o futuro. A idéia de infância é definida socialmente e que não é possível pensar na criança desligada de sua realidade social.

Na segunda infância, através da escola, a criança começa a socializar adquirindo conhecimento e aprendizado, vivendo conforme padrões sociais impostos desde cedo. Assim a criança é submetida a um compromisso com regras e horários para estudar tendo uma responsabilidade de tirar notas boas e sobressair-se no meio. Tudo isso alem da diversão, TV, Vídeo-game, Computador são importantes para sua subjetividade.

Deste modo, a estruturação do espaço urbano não somente reflete, como também determina tais socialidades emergentes. Os espaços livres das ruas, outrora utilizados pelas crianças para suas brincadeiras, agora se tornaram intensamente habitados pelos carros, parados ou em movimento. A rua perde assim, o lugar onde a expressão coletiva do lúdico – através das brincadeiras entre as crianças – encontrava acolhimento. Era também o lugar, onde, alem do foro privatista do lar, a criança era reconhecida por outros adultos, os comerciantes locais, os ociosos contumazes, os moradores da localidade que por ai andavam a fazer compras. A criança, expulsa da rua, principalmente nos bairros mais centrais da cidade grande, vai se restringir aos espaços fechados para conviver com os amigos, e talvez, alguns poucos adultos. Nestes espaços fechados muda, também, a natureza da brincadeira da criança. Parece razoável afirmar que o peso atribuído à atividade de assistir TV, dentro das outras atividades de uma criança de hoje, está relacionada com a redução das oportunidades de brincadeiras ao ar livre que hoje não são mais possíveis para grande maioria de crianças que mora na cidade grande (CASTRO, 1997, p.10).







Já na primeira infância, a família é a principal responsável pela iniciação da convivência onde a criança aprende amar, respeitar, valorizar e conhecer as primeiras regras de convivência. Mas já nos dias atuais a família tende a transferir esta tarefa para as escolas e creches devido à falta de tempo e suas ocupações fora de casa, sem tempo para diálogos. Com isso os pais buscam suprir essa ausência física com o consumo exagerado passando para essa criança uma visão materialista. A subjetividade e o desenvolvimento do individuo é um processo contínuo, porém este desenvolvimento é dividido em fases da vida que guardam certas características especificas: a vida pré-natal, a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice. Nestes termos pode-se afirmar que a psicologia cientifica estuda a subjetividade da criança nos diversos meios sociais em que ela está inserida, pois para cada ambiente seja em casa, seja na escola ou brincando ela se interage e constrói sua própria identidade.

2.4 Família – Socialização primaria da criança

A criança em sua primeira infância vivencia o processo de socialização no qual ocorre a criação de uma identidade abstrata, através da interiorização de atitudes de pessoas mais próximas como dos pais e parentes. Berger e Luckmann (2005) afirmam que “O individuo não somente absorve os papéis e atitudes dos outros, mas nesse mesmo processo assume o mundo dos mesmos”.

É indispensável na socialização primária a relação com outros significativos, como os parentes mais próximos, pois através destes, que a criança pode também adquirir informações ao longo do seu desenvolvimento e arquivar de forma abstrata no seu incosciente. Esses outros significativos além de influenciar com a própria subjetividade podem influenciar também através da ênfase de atitudes dos pais com a criança. Segundo o autor Berger e Luckmann (2005), podemos entender que o papel desses outros significativos não é tão importante como o papel dos pais, mas é de suma importância para o desenvolvimento da subjetividade e início de socialização da criança.

A criança inconscientemente usa do processo de imitação e observação e devido a este fato destacamos o papel dos pais, que tem uma convivência maior do que os outros significativos e decorrentes a isto, a criança tem uma tendência maior de observar e imitar as atitudes dos pais. (BERGER; LUCKMANN,2005).







Na socialização primária um bom exemplo para identificar este processo de imitação e observação é quando uma criança começa a comer sozinha. Primeiro existe um processo de observação e logo após vem à imitação da atitude dos pais ao comer e assim ocorre o processo de assimilação da criança com a atitude observada.

A sociedade apresenta ao candidato a ser socializado uma realidade já definida, com os seus significativos imbuídos nessa tarefa de primeira socialização do indivíduo. Isso é de suma importância nessa estrutura inicial onde a criança além de assimilar atitudes, assimila também normas e nesse mundo doméstico, que não há espaço para o mínimo de dúvidas, a criança tem que ter a confiança de que tudo esta bem.

A socialização primária termina quando a criança absorve o conceito do significativo de forma generalizada em sua consciência. Com essa realidade interiorizada, o indivíduo possui uma personalidade subjetiva e um mundo criado principalmente através do convívio com a família, e apesar da socialização ser um processo continuo, ele se torna membro da sociedade.

2.5 Escola e socialização da criança

Cientes de que todo grupo tem e necessita de sua própria cultura, onde normas, conhecimentos, valores e tradições são transmitidos de geração em geração. Não nos esquecendo de considerar as constantes mudanças da sociedade e a evolução da ciência que alteram essa formação cultural de tempos em tempos, ressaltaremos aqui a importância da escola enquanto instituição social, enfatizando seu papel na socialização da criança.









Nossa socialização é aprendida e interiorizada ao longo de nossa vida através de elementos sócio culturais, do meio em que vivemos, de ensinamentos de outras gerações, aprendizagem de técnicas, aquisição de conhecimentos, padrões de comportamento social e esta se ajusta continuamente durante os diversos estágios de nossas vidas.

Considerando as mudanças na sociedade que alteraram a formação da criança até os dias de hoje, percebemos que a escola, atualmente, divide principalmente com a família um papel de importância na socialização de nossas crianças.

Anteriormente à sociedade industrial, a duração da infância se limitava à tenra idade em que ela necessitava de cuidados físicos para a sua sobrevivência. Logo que este desenvolvimento físico fosse assegurado, a criança passava a conviver diretamente com os adultos, compartilhando do trabalho e dos jogos, em todos os momentos. A aprendizagem de valores e costumes se dava a partir do contato com os adultos: a criança aprendia ajudando os mais velhos (MIRANDA, 2004, p.126).

Estes mesmos autores esclarecem que esta tenra idade era aproximadamente até os sete anos, segundo Ariès, e que a família moderna que se estabeleceu na burguesia a partir do século XVII, após a revolução industrial faz com que “a aprendizagem social vá deixando de se realizar através do convívio direto com os adultos, sendo substituída pela educação escolar” (MIRANDA, 2004, p. 126).

Os autores Lakatos e Marconi (1999, p.224) afirmam “o efeito da educação, visto como um todo, é o de aumentar a rapidez com que as várias mudanças, tanto tecnológicas quanto materiais, se expandem na sociedade”, explicando porém, que as escolas devem ensinar a ciência e a tecnologia, mas, que a sociedade espera que estas mantenham inalterados os padrões de relações, normas e valores estabelecidos, tentando fixar uma função conservadora para a escola. O sistema educacional considerado como um aspecto da sociedade global está inserido na sociedade, mas não acima dela. Podemos perceber que a consolidação da democratização no processo escolar não se dá de forma simples e natural, mas se dá de forma gradativa. Exigindo constante formação dos profissionais do ensino e consequentemente maior consciência política de seu papel como educador para que a escola se consolide como espaço democrático. A educação se torna uma questão pública, é necessário resguardar direitos à educação para todas as classes sociais. Políticas governamentais, que possibilitem a inserção de membros de todas as classes neste processo escolar, são fundamentais.

Segundo Aranha e Martins (1998), a idéia otimista dos pedagogos de que a educação teria uma função democratizadora, ou seja, seria um fator de mobilidade social, se contrapõe a constatações críticas da realidade quando teóricos admitem que a escola não é equalizadora, mas reprodutora das diferenças sociais. Porém, também estes apontam uma saída, “a escola é um espaço possível de luta, de denúncia da domesticação e seletividade e de procura de soluções, ainda que precárias e parciais” (ARANHA; MARTINS, 1998, p.42).

Considerando que a criança, não tem meios de enfrentar o mundo sozinha, fica legitimada a necessidade de orientar a criança no seu processo de assimilação de normas e valores, e consequente socialização, evidenciando assim a importância da escola neste processo. Os autores citados a seguir justificam em parte esta afirmação.

Quando falamos do desenvolvimento intelectual da criança, não podemos deixar de mencionar Jean Piaget (1896-1980), psicólogo suíço e também filósofo, que desenvolveu uma teoria conhecida como psicologia genética e que também é abordada como teoria do construtivismo. Esta teoria envolve estágios de desenvolvimento da criança, e é considerada base para a elaboração de práticas pedagógicas. Considera que o saber é construído pela criança, e não imposto de fora. A criança organiza o pensamento e o julgamento. De acordo com Piaget (2007) cada estágio é caracterizado pelo surgimento de estruturas originais que vão distinguindo um do outro, gerando construções sucessivas. Este autor destaca os períodos de desenvolvimento em seis estágios. São estes:

O estágio dos reflexos ou mecanismos hereditários; o estágio dos primeiros hábitos motores e das primeiras percepções organizadas, como também dos primeiros sentimentos diferenciados; o estágio da inteligência senso-motora ou prática; o estágio da inteligência intuitiva, dos sentimentos interindividuais espontâneos e das relações sociais de submissão do adulto; o estágio das operações intelectuais concretas e dos sentimentos morais e sociais de cooperação e o estágio das operações intelectuais abstratas da formação da personalidade e da isnserção afetiva e intelectual na sociedade dos adultos (PIAGET, 2007, p.15).

Para Charlot, a criança é o reflexo do que o adulto e a sociedade querem que ela seja e temem que ela se torne. A autora Marília Gouvea de Miranda escreveu:

Independentemente de sua origem social, a criança passa por um processo de maturação biológica, em que seu desenvolvimento depende da mediação do adulto. Contudo esta mediação se fará de diferentes maneiras (às vezes opostas) dependendo da condição social da criança. Na sociedade capitalista, definida pelas relações estabelecidas entre classes sociais antagônicas, a origem da criança determina uma condição específica de infância. Não existe, portanto, uma natureza infantil, mas uma condição de ser criança, socialmente determinada por fatores que vão do biológico ao social, produzindo uma realidade concreta. Assim, a dependência da criança é um fato social e não um fato natural (MIRANDA, 2004, p.128).

Ainda segundo esta autora, Miranda (2004), a escola tem tarefas básicas como:

. facilitar a apropriação e valorização das características sócio-culturais próprias das classes populares;

. garantir a aprendizagem de certos conteúdos essenciais da chamada cultura básica, tais como leitura, escrita, operações matemáticas, noções fundamentais de história, geografia, ciências, etc;

. propor a síntese entre as tarefas anteriores, possibilitando a crítica dos conteúdos ideológicos propostos pela cultura dominante e a reprodução do saber.

Fica estabelecido então, que na escola, a criança passa por um processo de socialização onde internaliza regras, padrões de comportamento, novos conteúdos e valores sociais. Porém as limitações para estas tarefas são constantes no processo educacional.

Em se tratando da importância da escola na socialização da criança, e considerando a primeira infância, principalmente, não poderíamos deixar de fazer um breve histórico sobre a educação infantil em nosso país. A educação infantil atribuiu às creches os cuidados com a criança de zero a três anos e à pré-escola os cuidados com a criança de quatro a seis anos.

Em 1940, acontece a criação do Departamento Nacional da Criança, no Ministério da Educação e Saúde. Em 1950, chegam às creches os discursos pedagógicos. Em 1960 o discurso baseava-se na idéia de que só havia um modelo de criança, o da classe média, e aí as classes desfavorecidas economicamente passam a ser consideradas carentes e inferiores. Em 1970, acontece uma profusão de movimentos sociais. Surge uma proposta de creche mais afirmativa para a criança, família e sociedade. Em 1980, temos um avanço considerável com relação à função da creche e pré-escola. A constituição de 1988 definiu a creche e a pré-escola como direito de família e dever do Estado.

De acordo com Kulhlmann (1998), as creches e escolas maternais eram consideradas não como um direito dos trabalhadores e de seus filhos, mas como uma dádiva dos filantropos, propunha-se o atendimento educacional à infância por entidades assistenciais. O termo creche sempre esteve vinculado a um serviço prestado à população de baixa renda. As creches surgem no país, como resposta dos empresários, aos protestos dos operários por qualidade de vida, pois eram precárias suas condições de trabalho. Neste momento as creches são organizadas com caráter assistencialista. São organizadas por associações religiosas ou filantrópicas e também por mulheres das classes sociais mais abastadas da sociedade. A finalidade é ensinar as mães (mais pobres) como cuidar de seu filho, orientações sobre saúde e higiene e como serem boas mães, com os cuidados adequados relacionados à maternidade, porém considerando os padrões da classe dominante. Com o crescimento dos movimentos populares contra a ditadura militar, surge também o movimento pelas creches. O movimento popular e as reivindicações das feministas colocaram as creches em evidência, e estas se tornam sinônimo de conquista. Precisavam ser diferentes das vinculadas às entidades assistenciais. Expandiu-se a pré-escola e os educadores também criticavam o assistencialismo.

Surge a necessidade de um projeto educacional, que é anunciado como necessário, se opondo à educação assistencialista. Neste momento ainda segundo Kulhlmann (1998), instala-se uma dicotomia, o projeto educacional é visto como se fosse do bem e o assistencialismo como o império do mal. Porém, na opinião deste mesmo autor a educação não é tão inocente e nem redentora da triste realidade, enquanto a assistência não é a grande vilã.

Argumentos muito mais sérios são aqueles que mostram a necessidade de melhorar a qualidade da educação nas creches e nas pré-escolas, em respeito às crianças que as freqüentam sem receber os cuidados, atenção afetiva e estímulo intelectual necessários a qualquer se humano em desenvolvimento (KUHLMANN, 1998, p.203).

2.6 Mídia e tecnologia

As autoras Sônia das Graças Oliveira Silva (2008) e Elza Dias Pacheco (1991) relatam sobre o desenvolvimento tecnológico que existem hoje e que se caracterizam pelas telecomunicações, informática, automação de serviços, robôs, eletrodomésticos, eletrônicos para lazer, e como eles, principalmente a televisão, influenciam nas rotinas das crianças e seus familiares.









A criança passa muito mais tempo com os seus heróis da TV do que com os pais ou professores. Muitas suprem a falta que sentem dos pais com a televisão, sempre presente, colorida e de fácil acesso. Quanto menor e mais frágil for a criança, mais influência sofrerá se encontrar um personagem violento ou mau caráter, no qual se espelhará. Da mesma maneira que a família e a escola, a TV também tem um papel muito importante no desenvolvimento da criança. Desde cedo elas tem a tendência à imitação, portanto imitam também o comportamento que vêem na televisão. Apesar de imitarem as ações positivas observadas na mídia, infelizmente também imitam os comportamentos agressivos e violentos. Estas cenas agressivas são vistas nos filmes e desenhos animados e as crianças não as distinguem da violência real. Temos como exemplo os Power Rangers e as Tartarugas Ninja.

Alguns heróis violentos são mais prejudiciais às crianças do que alguns vilões, porque são modelos que elas gostam de copiar. Os filmes do Exterminador são bons exemplos disso, neles a violência é premiada e considerada eficaz.

Hoje muitos pais estão se perguntando se a TV é mesmo prejudicial para os seus filhos. Alguns pensam que devem desligar a TV. Outros nem se importam com isso, pois a TV, para eles, realmente é a alternativa mais segura.

A televisão chegou e rapidamente se desenvolveu e se estendeu a todos os lugares e regiões do país, com isso mudaram–se os costumes, pois antigamente as crianças brincavam nas ruas, corriam em praças, esquinas, brincavam de amarelinha, esconde-esconde, subiam em árvores. Atualmente estão presas em um apartamento e tem como companhia a TV e seus desenhos animados. A mãe não precisa mais procurar seus filhos pela vizinhança, pois eles estão “grudadinhos” na telinha da TV. É de certa forma conveniente para alguns pais que a criança fique vendo a TV, para dar sossego, como se a TV fosse uma babá eletrônica.

Desde muito cedo, as crianças vêem televisão por longo tempo, acostumam-se a ler os logotipos dos produtos que as interessam. Uma criança que vai ao supermercado com os pais, sabe perfeitamente pegar o iogurte que deseja beber, e sabe dizer o seu nome. Sabe que aquelas sandálias são da Xuxa ou da Sandy, pois está muito familiarizada com esses rostos na TV. Conhece símbolos de lojas, de mercadorias, enfim sabem “ler” as marcas.

São alfabetizadas pelas imagens, através da televisão, sem nenhum professor.

Sabemos que a solução não é proibir o uso da TV e sim fazer uma análise dos programas visando à idade das crianças, o tempo que vão ficar vendo TV, ajudá-las a criticar e saber separar um programa do outro. Outra solução, talvez a melhor, é proporcionar-lhes outras atividades mais saudáveis. Não havendo opção, deve-se procurar na própria TV programas bons e dirigidos à idade certa, tendo a firmeza de impor limites de tempo em frente à TV. OLIVEIRA SILVA (2008) p. 03.

A TV, como os videojogos, e, em certa medida, os computadores, favorecem um novo tipo de compreensão e de comunicação baseada nas propriedades da imagem.

Nem a psicologia nem qualquer outra ciência pode adotar uma resposta definitiva sobre se a TV é boa ou não para as crianças. Sua influência dependerá de como ela é utilizada”. PACHECO (1991) p. 05.

III - Considerações Finais

Diante dos estudos realizados concluímos que a socialização da criança não se restringe apenas a família, mas também a sociedade e ao estado. Ressaltamos também que a construção da historia de cada criança na primeira infância se intensifica num processo de estruturas básicas que constituem em físicas, psicológicas e sociais, que deve ser respeitado e considerado acima de tudo, mas não e só isso; pois esse desenvolvimento ocorre à medida que a criança se integra a uma realidade social.

A escola tem um papel importante na socialização da criança. No processo educacional, é necessário considerar diversos aspectos, tais como a educação familiar de cada criança, padrões e regras que a sociedade impõe. Faz-se necessário uma constante formação e atualização dos profissionais da educação, onde novas praticas pedagógicas precisam ser adotadas, acompanhando e usufruindo a evolução da ciência e da tecnologia. As políticas educacionais governamentais que permeiam o sistema de ensino precisam viabilizar esta socialização de forma satisfatória, mas igualitária e democrática.

Quanto ao desenvolvimento físico da criança destacamos o quanto é essencial potencializar o cérebro, exercitando-o, explorando melhor sua capacidade e potencial para as informações ligadas a aprendizagem e processos cognitivos, e assim como a infância é uma fase que estabelece as bases do desenvolvimento do homem em um processo continuo, a subjetividade na infância também é um processo continuo. Da condição inicial de um ser totalmente dependente dos cuidados dos adultos para sobreviver, a criança passa por uma transformação, construindo os processos que estarão permanentemente presentes na sua historia, construindo sua própria identidade, seja em casa, na escola ou brincando.

A TV também tem um papel muito importante no desenvolvimento da criança. Desde cedo elas tem tendência à imitação e utilizam a TV como referencia, substitui de alguma forma a função materna. Esta a disposição a qualquer hora do dia e da noite e alimenta o imaginário infantil. É um refugio nos momentos de frustração, tristeza e angustia. Dá à família a sensação de segurança, no sentido de que pelo menos as crianças estão em casa.

Devemos, portanto considerar que a socialização da criança em sua primeira infância deve-se a fatores intrínsecos e extrínsecos, que sofrem variações de um individuo para outro, tornando-se único em seu desenvolvimento. Os fatores intrínsecos determinam os fatores biológicos, bem como seu desenvolvimento físico. Os fatores extrínsecos atuam desde a concepção, após o nascimento, o ambiente em que a criança vive, os estímulos, os cuidados, o respeito, a cultura, a educação.




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